5# INTERNACIONAL 23.4.14

     5#1 O NAUFRGIO DOS INOCENTES
     5#2 O PEDGIO CUBANO

5#1 O NAUFRGIO DOS INOCENTES
Uma excurso de frias terminou em tragdia na Coreia do Sul, deixando 271 desaparecidos. O comandante abandonou o navio.

     Um capito imprudente que, aps cometer uma falha, foi um dos primeiros a abandonar a embarcao e o socorro aos demais. Eis uma descrio bastante acurada do desastre com o navio de cruzeiro Costa Concrdia, na Itlia, em 2012. Agora serve tambm para explicar o naufrgio ocorrido na quarta-feira passada na Coreia do Sul. A causa dos dois acidentes parece ter sido a mesma: ambos os navios se chocaram com rochas sob a gua, e a responsabilidade nos dois casos recai sobre seus capites. O coreano Lee Joonseok, de 69 anos, preferiu uma rota mais curta e prxima do continente, no recomendada pelas autoridades, para apressar a viagem que comeou com duas horas de atraso. Foi um dos primeiros a deixar o Sewol aps o choque, assim como fizera o italiano Francesco Schettino. Na tragdia do Mar Mediterrneo, todos os 4300 passageiros e tripulantes poderiam ter sido salvos se a ordem para abandonar o navio no tivesse demorado mais de uma hora. O nmero de mortos foi de 32. No caso da Coreia, esse aviso nem sequer foi dado. Dos alto-falantes, s o que se ouviu repetidamente foi que todos deveriam permanecer em seus lugares. No dia seguinte, ainda havia 271 desaparecidos, provavelmente mortos. Alguns, por um milagre, poderiam estar vivos em bolses de ar dentro dos compartimentos do navio. A esperana era rasa. Com a gua a uma temperatura de 12 graus, os sobreviventes poderiam resistir por no mximo duas horas. 
     O Sewol deixou o Porto de Incheon para uma viagem de catorze horas at a ilha turstica de Jeju. Embora tivesse capacidade para 900 pessoas, o barco levava 475. Dessas, 325 eram estudantes de um colgio da cidade de Ansan, localizada ao sul de Seul. Tinham 16 ou 18 anos. Catorze professores os acompanhavam. Durante o caf da manh, os passageiros sentiram um baque e o navio comeou a tombar rapidamente. Quarenta minutos depois, apenas cinco pessoas haviam sido resgatadas, incluindo o capito. "Todos lutavam para chegar aos andares superiores, mas era difcil com aquela inclinao", descreveu Kim Song-muk, que foi salvo. 
     Antes de o navio afundar quase que por completo, a agonia dos pais era pontuada por notcias dadas pelos filhos presos na embarcao. "Ns no estamos mortos ainda. Por favor, passe a mensagem adiante", escreveu um estudante  me, por celular. At a quinta-feira, ele estava entre os desaparecidos. Uma aluna de 18 anos avisou ao pai: "No se preocupe, eu tenho um colete salva-vidas e estamos todos juntos". O pai avisou que o socorro estava a caminho, mas que ela deveria tentar escapar. "Pai, eu no consigo sair, o corredor est cheio de gente, est muito inclinado", respondeu ela. Em duas horas, a embarcao de 6325 toneladas e 146 metros de comprimento virou completamente. Depois disso, nenhuma chamada de celular foi feita. 
     Pelas regras do mar, o capito tem liberdade para definir a rota. Bancos de areia, pedras e outros obstculos nem sempre podem ser detectados. "s vezes, o acidente  inevitvel", afirma lvaro Jos de Almeida Jnior, presidente do Centro de Capites da Marinha Mercante, no Rio de Janeiro. Contudo,  das normas que o capito deve ser o ltimo a deixar o navio. "Ele manda distribuir os coletes salva-vidas e toma todas as providncias", diz. Lee juntou-se a Schettino no time dos irresponsveis. 
COM REPORTAGEM DE LETCIA NASA


5#2 O PEDGIO CUBANO
Por intermdio de estatais da ilha caribenha, a Venezuela importa alimentos do Brasil a um valor acima do mercado  e, em pelo menos um contrato, h suspeita de corrupo.
LEONARDO COUTINHO

     Os governos petistas do Brasil e os chavistas da Venezuela tm uma capacidade espantosa de criar subterfgios para transferir dinheiro dos seus contribuintes para a ditadura dos irmos Fidel e Raul Castro, em Cuba. Os tiranos caribenhos recebem dos aliados do Sul petrleo subsidiado, emprstimo para construir portos e a chance de exportar mo de obra a preos superfaturados (h outra maneira de explicar o fato de o governo cubano confiscar mais de 70% do salrio dos profissionais enviados para o Brasil pelo programa Mais Mdicos?). O ex-presidente venezuelano Hugo Chvez, em especial, praticamente entregou o seu pas ao controle e  explorao dos cubanos. Os enviados dos Castro do ordens aos generais venezuelanos, dominam os cartrios e a emisso de documentos, fazem a segurana do presidente Nicols Maduro e administram a alfndega dos portos e aeroportos. Uma das reas mais lucrativas nas mos dos fidelitos e que mais prejudicam os cidados venezuelanos, porm,  a importao de itens bsicos, como remdios e alimentos. As estatais cubanas responsveis por esse servio so negligentes, fazem a Venezuela pagar mais caro pelos produtos e, em pelo menos uma ocasio, exigiram propina de empresrios no Brasil. 
     Hugo Chvez deu s empresas Alimport, CubaControl e Surimport, de Cuba, o direito de intermediar toda a importao estatal de alimentos a partir de 2008. Isso representa um tero do total comprado do exterior. S do Brasil, o segundo maior exportador para o pas, foram enviados em 2013 mais de 2 bilhes de dlares em alimentos, principalmente carne. Justo no ano em que as estatais cubanas entraram no negcio, os preos pagos pela Venezuela pelos produtos brasileiros dispararam (veja o quadro ao lado). E, igualmente em 2008, houve um episdio que pe sob suspeita a lisura das negociaes feitas pelos escritrios de comrcio exterior cubanos instalados no Brasil. 
     Num processo contra a PDVSA, a estatal venezuelana de petrleo, encerrado em 2011 na Justia dos Estados Unidos, os donos da exportadora americana Dexton Validsa informaram que foram chamados para uma reunio no antigo hotel Gran Meli Mofarrej, em So Paulo, trs meses depois de os cubanos assumirem a intermediao das importaes venezuelanas. Nesse encontro, do qual participaram concorrentes brasileiros da Dexton, os representantes da PDVSA explicaram as novas regras para exportar para a Venezuela. Isso inclua pagar 2 milhes de dlares de propina para assegurar o negcio. Os americanos se recusaram e, em punio, tiveram o contrato de exportao de carne rompido. A Dexton conseguiu provar na Justia que o rompimento no se justificava porque os cubanos passaram a comprar carne de uma empresa brasileira a um preo 14% mais alto. A PDVSA, que administra os mercados populares em que a carne da Dexton seria vendida, foi condenada a pagar uma indenizao aos americanos pela quebra de contrato. Procuradas pela reportagem, as exportadoras brasileiras de carne informaram que nunca receberam pedido de propina dos funcionrios da CubaControl e da Surimport, que tem escritrios no Brasil, para assegurar a venda de cargas para a Venezuela. 
     Os frigorficos justificam que no preo mais alto cobrado da Venezuela est embutido o risco de calote e de atraso no pagamento, problemas pelos quais o pas j est famoso no mercado internacional. Somente com o Brasil, os atrasos chegam a seis meses, com uma dvida acumulada no ms passado de 1,5 bilho de dlares (no includos os contratos com empreiteiras), dos quais a maioria  da compra de alimentos. Apesar disso, quando visitou Caracas em outubro do ano passado, Fernando Pimentel, ento ministro brasileiro do Desenvolvimento, Indstria e Comrcio Exterior, no fez referncia aos atrasos e afirmou que estava l para tentar aumentar ainda mais a exportao de alimentos. Disse Pimentel, na ocasio (prepare o flego): "Ativamos de imediato planos especiais para conseguir o superabastecimento de produtos-chave que foram golpeados por essa guerra econmica de especulao". A expresso "guerra econmica"  recorrente no discurso chavista, e  uma maneira de culpar a oposio, o empresariado e os produtores rurais da Venezuela pelo desabastecimento no pas. Segundo a mais recente estimativa, seis em cada dez itens da cesta bsica e de uso dirio, como papel higinico, esto em falta nas prateleiras. Ao contrrio do que pensa Pimentel, a culpa  quase toda do governo chavista e de seus parasitas cubanos. Primeiro, Chvez destruiu a produo agrcola do pas com a expropriao de terras e ataques aos empresrios da agroindstria. Depois, com o controle do cmbio e o aumento progressivo da inflao, o governo chavista passou a tabelar os preos, a ponto de o valor dos alimentos ficar abaixo do seu custo de produo. Nos ltimos dez anos, a proporo de alimentos produzidos internamente caiu de 60% para 30%. 
     Para compensar, o Estado passou a importar alimentos para vender a preos subsidiados em redes como Mercal e PDVAL, subsidiria da PDVSA. Empresas privadas tambm podem importar, mas o pagamento aos fornecedores externos s pode ser feito por intermdio do governo, o que se tornou uma fonte inesgotvel de corrupo e atrasos. A atuao dos cubanos como importadores oficiais s piorou a situao. Em 2008, de 1 milho de toneladas importadas por eles, apenas 150.000 foram comercializadas. O resto foi desviado ou apodreceu em armazns da PDVAL. Esse desperdcio ocorre ano aps ano. Afinal, aos enviados dos Castro interessa apenas garantir o sustento do seu regime que, alm dos 5% de comisso oficial pelo servio de importao, recolhe propinas mundo afora. 

Muy amigos
Em 2008, ano em que Cuba comeou a intermediar a importao de carne bovina brasileira, o preo do produto para a Venezuela aumentou mais do que para os outros clientes externos do Brasil, em mdia (em dlares, por quilo)
2006
Preo pago pela Venezuela: 2,49

2007
Preo pago pela Venezuela: 2,66
Quanto deveria ter sido pago, seguindo a variao do mercado: 2,66

2008 (Incio da intermediao de Cuba)
Preo pago pela Venezuela: 4,31
Quanto deveria ter sido pago, seguindo a variao do mercado: 3,16

2009
Preo pago pela Venezuela: 4,09
Quanto deveria ter sido pago, seguindo a variao do mercado: 3,02

2010
Preo pago pela Venezuela: 4,63
Quanto deveria ter sido pago, seguindo a variao do mercado: 3,24

2011
Preo pago pela Venezuela: 5,31
Quanto deveria ter sido pago, seguindo a variao do mercado: 3,47

2012
Preo pago pela Venezuela: 5,14
Quanto deveria ter sido pago, seguindo a variao do mercado: 3,40

2013
Preo pago pela Venezuela: 5,38
Quanto deveria ter sido pago, seguindo a variao do mercado: 3,24

A diferena representou um prejuzo de 480 milhes de dlares para os venezuelanos.


